Plantas companheiras – sabem que plantas se ajudam umas às outras quando plantadas perto?

A época da jardinagem está quase a chegar e se tiverem uma horta, provavelmente estão a começar a planear o que plantar este ano. Achámos que seria ótimo escrever agora um artigo sobre plantas companheiras, para que possam considerar isto no vosso plano! Este método tem várias vantagens, como vão ver.
Quando legumes diferentes são plantados próximos uns dos outros, o termo plantas companheiras é usado. Como cada tipo de legume tem as suas próprias características e qualidades, quando se misturam tipos de legumes diferentes num mesmo canteiro, essas qualidades podem ser combinadas de forma a gerar benefícios para o crescimento dos dois tipos de legumes. Alguns desses benefícios são:

  • Repelir ou interceptar pragas
  • Melhorar as condições do solo
  • Maximizar o uso do espaço
  • Aumentar o rendimento das culturas

Este método pode ser usado em hortas caseiras e também na agricultura em maior escala. Existem vários livros sobre plantas companheiras. Muita desta informação remonta a tradições e testemunhos, mas alguma foi também estudada com métodos científicos. Neste artigo, vou escrever sobre a combinação de diferentes vegetais sob uma perspectiva científica, dando-vos informações práticas que podem usar na vossa própria horta.

Embora diferentes vegetais tenham características diferentes, eles são todos plantas e portanto, partilham todos algumas propriedades básicas: todos eles precisam de luz, água e nutrientes. Portanto, os vegetais também competem uns com os outros pelas suas necessidades. Mas, para além da competição, algumas combinações de vegetais podem trazer certos benefícios.

Controlo de pragas

O exemplo que provavelmente foi melhor estudado cientificamente é o efeito da calêndula (marigold) em nematódeos. Os nematódeos são minúsculas lagartas que vivem no solo e algumas atacam as nossas plantações. Eles podem alimentar-se de uma variedade de plantas, o que se torna mais difícil livrarmo-nos deles. Mas a calêndula pode suprimir certas pragas de nematódeos através da produção de toxinas específicas para nematódeos e também da estimulação de inimigos naturais [1]. Por isso, se tiverem um problema com este tipo de animais na vossa horta, podem tentar plantar calêndulas.

Para além destas minúsculas lagartas, outro tipo de pragas que pode causar problemas na nossa horta são os insetos. A família das Brassicaceae, que inclui vegetais como couve, couve-flor, couve de Bruxelas, couve kale e mostarda, é particularmente vulnerável a certas pragas e portanto, o seu controlo é importante. Felizmente, tem sido verificado que várias outras plantas, quando plantadas perto das couves, diminui este problema. Um estudo de 2014 sobre plantas companheiras mostrou que o alho (allium sativum) e a cebola (allium cepa) reduzem significativamente a prevalência de pragas na couve, levando ao aumento da produtividade [2]. Outro estudo verificou que a cebola, o alho e os coentros protegem a mostarda de pragas quando plantadas juntas, reduzindo a população de pragas em comparação com quando a mostarda é plantada sozinha como monocultura [3]. No que diz respeito à couve-flor, um estudo recente mostrou que plantá-la juntamente com coentros pode atrair inimigos naturais das pragas de couve-flor e portanto, aumentar o rendimento em comparação com quando a couve-flor é plantada sozinha [4]. Este estudo também testou diferentes formas de plantar a couve-flor com os coentros: em linhas ou em quadrados. Verificou-se que plantar estas duas plantas em quadrados diminui mais a população de pragas do que quando estes são plantadas em linhas. Mas não são só as Brassicas que beneficiam deste método das plantas companheiras. A alface, por exemplo, também é protegida de certas lagartas quando plantada juntamente com cebolas [5].

Plantas companheiras com couve-flor e coentro. a) plantada em linhas; b) planted em quadrados (olha referência 4)

Outra fonte de pragas é de origem microbiana, onde micróbios provenientes do solo ou do ar atacam as nossas culturas. Um desses patógenos é o fungo Verticillium, que leva a que várias plantas, como por exemplo os tomateiros, batateiras e a planta da berinjela, murchem. Num estudo com plantas companheiras, onde usaram tomate e um tipo de cebola, verificou-se que a incidência da doença e os sintomas de Verticillium foram reduzidos em comparação com o monocultivo [6]. E este efeito parece estar relacionado com uma ativação de genes de defesa em tomateiros que crescem perto de cebolas.

Produtividade

Um sistema bastante tradicional de plantação companheira é o milpa ou as três irmãs. Neste método, o milho, feijão e abóbora são cultivados juntos. Os talos de milho servem como suporte onde o feijão pode subir, e a abóbora cobre o solo, minimizando a evaporação e suprimindo outras plantas. O feijão como leguminosa também tem a capacidade de fixar o nitrogénio da atmosfera, adicionando um efeito auto-fertilizante a este sistema. Parte deste nitrogénio fixado pode ser transferido para o milho com a ajuda de micorrizas. Este sistema milpa pode aumentar muito mais o rendimento, isto é, produzir mais alimentos numa determinada área, do que cultivar apenas uma destas três plantas sozinha (em monocultura) [7].

Na produção de alimento para os animais, este método das plantas companheiras é também comum. A mistura de erva e trevo, com uma proporção de 40-60% de trevo, produz altos rendimentos [8]. Neste caso, o trevo não obtém muito nitrogénio do solo, devido à competição com a erva. Não é de surpreender, portanto, que a mistura de cevada (tipo de erva) e leguminosas resulte numa melhor produção [9]. Além disso, em comparação com o monocultivo, plantar intercaladamente erva e leguminosas (feijão por exemplo) pode reduzir 20-40% das doenças dessas plantas.

Além de usar combinações de leguminosas (feijão, etc) e erva (cevada, trigo, espelta, centeio, etc), também podem aumentar a produtividade na vossa própria própria horta (e aproveitar melhor o espaço) ao plantar plantas que têm diferentes tempos de maturação perto umas das outras. Por exemplo, podem intercalar fileiras de alface com fileiras de cenouras. A planta da cenoura na fase inicial é bastante vertical e tem dificuldade em fazer sombra a todas as ervas daninhas. Aqui a alface de folhas largas vem a calhar, uma vez que suprime outras plantas indesejáveis. A alface cresce rapidamente e quando as cenouras começam a precisar de mais espaço, é normalmente a altura de colher a alface.

Como podem ver, as plantas companheiras têm muitos benefícios e podem ajudar-nos a cultivar de forma mais sustentável. As variedades cultivadas utilizadas foram muitas vezes otimizadas para cultivo em monocultura, no entanto, os efeitos benéficos podem ser observados em misturas com outras culturas. No futuro, podem ser desenvolvidas outras variedades adaptadas para crescerem otimamente com as companheiras, o que pode melhorar ainda mais os seus efeitos benéficos.

Então, um pequeno resumo do que foi falado neste artigo sobre que plantas gostam de ser cultivadas perto umas das outras:

  • Calêndula contra nematódeos
  • Couve – alho / cebola
  • Mostarda – alho / cebola / coentros
  • Couve-flor – coentros
  • Alface – cebola
  • Tomate – cebolas
  • Milho – feijão – abóbora
  • Tipos de erva – leguminosas
  • Alface – cenoura

Já experimentaram a combinação de diferentes plantas na vossa horta? Digam-nos nos comentários em baixo!

Te desejo um bom trabalha na sua horta
Christoph

 

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Referências

[1] Hooks, C. R., Wang, K. H., Ploeg, A., & McSorley, R. (2010). Using marigold (Tagetes spp.) as a cover crop to protect crops from plant-parasitic nematodes. Applied Soil Ecology, 46(3), 307-320.
[2] Debra, K. R., & Misheck, D. (2014). Onion (Allium cepa) and garlic (Allium sativum) as pest control intercrops in cabbage based intercrop systems in Zimbabwe. IOSR Journal of Agriculture and Veterinary Science, 7(2), 13-7.
[3] Afrin, S., Latif, A., Banu, N. M. A., Kabir, M. M. M., Haque, S. S., Ahmed, M. E., … & Ali, M. P. (2017). Intercropping Empower Reduces Insect Pests and Increases Biodiversity in Agro-Ecosystem. Agricultural Sciences, 8(10), 1120.
[4] Mahendran, B., Sharma, R. K., & Sinha, S. R. (2018). Strategies for Insect Management in Cauliflower (Brassica oleraceae var. botrytis) Through Habitat Intervention. Proceedings of the National Academy of Sciences, India Section B: Biological Sciences, 88(1), 305-311.
[5] Sulvai, F., Chaúque, B. J. M., & Macuvele, D. L. P. (2016). Intercropping of lettuce and onion controls caterpillar thread, Agrotis ípsilon major insect pest of lettuce. Chemical and Biological Technologies in Agriculture, 3(1), 28.
[6] Fu, X., Wu, X., Zhou, X., Liu, S., Shen, Y., & Wu, F. (2015). Companion cropping with potato onion enhances the disease resistance of tomato against Verticillium dahliae. Frontiers in plant science, 6, 726.
[7] Gliessman, S. R. (2014). Agroecology: the ecology of sustainable food systems. CRC press.
[8] Nyfeler, D., Huguenin-Elie, O., Suter, M., Frossard, E., & Lüscher, A. (2011). Grass–legume mixtures can yield more nitrogen than legume pure stands due to mutual stimulation of nitrogen uptake from symbiotic and non-symbiotic sources. Agriculture, ecosystems & environment, 140(1-2), 155-163.
[9] Hauggaard-Nielsen, H., Jørnsgaard, B., Kinane, J., & Jensen, E. S. (2008). Grain legume–cereal intercropping: The practical application of diversity, competition and facilitation in arable and organic cropping systems. Renewable Agriculture and Food Systems, 23(1), 3-12.

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