Alho de urso (Allium ursinum): alimento da época e planta medicinal

O alho de urso (Allium ursinum), também conhecido como alho selvagem, é uma erva selvagem comestível muito comum em vários países europeus (exceto regiões mediterrâneas e de elevada altitude) e asiáticos. Em Portugal, nunca tinha visto ou ouvido falar desta planta. Na verdade, só soube da existência do alho de urso quando vim viver para a Suiça, onde é possível encontrar florestas inteiras cheias desta erva no início da primavera. Portanto, se por acaso forem visitar (ou viverem em) outros países europeus no início da primavera (agora), podem aproveitar e colher esta erva aromática selvagem nas florestas :).

Pensa-se que o nome “alho de urso” seja devido a histórias que diziam que os ursos, após despertarem da hibernação do inverno, consumiam esta planta para remover toxinas do corpo e recuperar a força [1].

Acredita-se que o alho de urso tenha sido uma das plantas que contribuíram para a dieta dos caçadores-coletores, e tem sido muito usada desde então [1]. Várias culturas têm usado esta erva devido aos seus efeitos para a remoção de toxinas [1].

Eu gosto bastante desta erva aromática por várias razões:
– quando aparece é geralmente um sinal de que a primavera está a chegar: D
– é uma das primeiras ervas / vegetais que aparecem no ano (na Suiça e outros países da Europa central-este-norte)
– é super aromática e saborosa! (quer dizer, se gostarem do sabor a alho, claro :))
– é super saudável, como vão ver mais em baixo.

Eu gosto muito de fazer caminhadas nas florestas suíças e muitas vezes, especialmente na primavera e verão, aproveito para colher ervas que eu sei (100% certeza) que são comestíveis. O alho de urso é uma delas. Mais precisamente, a primeira do ano!

Todas as partes da planta são comestíveis, ou seja, a raiz (bolbo), as folhas e as flores (mas se comerem a raiz…não esperem alho de urso no próximo ano dessa planta: p). Eu costumo usar as folhas da planta antes das flores aparecerem. Quando as flores aparecem, uso-as em vez das folhas, uma vez que as folhas contêm muito mais compostos benéficos antes do florescimento [1].

Uso esta planta para fazer pestos, em saladas, sopas, etc. Gosto de usá-la basicamente em tudo.

Agora, têm que ter um certo cuidado quando colherem esta erva. Existem algumas plantas semelhantes que são venenosas, e cujas folhas são muito parecidas, como por exemplo o lírio-do-vale. Por isso, precisam de as saber distinguir. Uma maneira muito fácil é cheirá-las: o alho de urso, como o nome indica, tem um forte aroma (e sabor) a alho. A melhor época para colher o alho de urso é do final de Fevereiro até ao início de Abril (dependendo da temperatura). Quando começa a ficar mais quente, a planta começa a florescer. O lírio-do-vale aparece mais em Maio. E portanto, normalmente os erros ocorrem quando as pessoas tentam encontrar o alho de urso demasiado tarde.

O alho do urso regenera-se principalmente através das sementes, que são pretas e são espalhadas na terra (pela própria planta) em junho e julho, embora isto dependa das condições climáticas.

Benefícios para a saúde

Além de ser muito saboroso, o alho de urso é muito saudável, uma vez que tem bastantes antioxidantes (por exemplo, compostos fenólicos), vitaminas (folato, por exemplo) e fitonutrientes (como clorofila e carotenóides, além dos compostos fenólicos mencionados) [1-3]. Curiosamente, esta planta não só contém bastantes antioxidantes, mas também está relacionada com uma atividade mais elevada de enzimas antioxidantes [4]. O seu distinto aroma a alho é devido à presença de compostos que contêm enxofre [5] (super saudável!),alguns dos quais também estão presentes noutras plantas de Allium, como o alho comum.

O alho de urso tem sido usado como uma planta medicinal na medicina tradicional ao longo da história da humanidade. E agora a ciência também está a provar os seus benefícios para a saúde, como:

– atividade antimicrobiana (antibacteriana e antifúngica) e antiparasitária [6-9]

– atividade antioxidante, ou seja, eliminação de radicais livres [4, 8-10]

– atividade antiaterogénica e antiplaquetária (anticoagulante) [11-13]

– efeitos cardioprotetores (o que significa que protege o nosso coração) [1, 11, 14, 15]

– reduz a pressão arterial elevada (hipertensão) [14, 16]

– útil no tratamento de distúrbios gastrointestinais (digestivos) [8]

– desintoxicação [1]

Além de todos estes usos medicinais científicamente comprovados, devido à sua potente atividade antimicrobiana, também tem sido usado na medicina tradicional europeia como um remédio para problemas respiratórios, como a constipação (resfriado) com febre ou bronquite. Também tem sido usado externamente para ajudar na cicatrização de feridas, em doenças crónicas da pele e no acne [1].

Cuidado especial

Embora o alho de urso seja geralmente reconhecido como seguro, existem algumas situações em que é preciso ter cuidado. Se tiverem, ou forem propensos a ter, anemia hemolítica, consumam o alho de urso (ou alho em geral) com cuidado [1]. Além disso, se estiver grávida ou a amamentar, deve ter cuidado com a quantidade que consome. O alho de urso tem uma potente atividade de desintoxicação e não vai querer desintoxicar (mais do que o normal) quando estiver grávida (mas sim vários meses antes da gravidez!). Portanto, nestes casos, consumam-no em pequenas quantidades e evitem os pestos que são feitos com quantidades elevadas desta erva. Se estiverem a tomar medicação anticoagulante, tenham também cuidado, pois o alho de urso tem atividade anticoagulante por si só.

Já conheciam esta erva? Costumam usá-la nos vossos cozinhados? Como? Digam-nos nos comentários em baixo!

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Referências

  1.        Sobolewska, D., I. Podolak, and J. Makowska-Was, Allium ursinum: botanical, phytochemical and pharmacological overview. Phytochem Rev, 2015. 14(1): p. 81-97.
  2.        Oszmianski, J., J. Kolniak-Ostek, and A. Wojdylo, Characterization and content of flavonol derivatives of Allium ursinum L. plant. J Agric Food Chem, 2013. 61(1): p. 176-84.
  3.        Stajner, D., et al., Comparative study of antioxidant properties of wild growing and cultivated Allium species. Phytother Res, 2008. 22(1): p. 113-7.
  4.        Stajner, D., et al., Antioxidant and scavenger activities of Allium ursinum. Fitoterapia, 2008. 79(4): p. 303-5.
  5.        Gitin, L., et al., Sulfur compounds identification and quantification from Allium spp. fresh leaves. J Food Drug Anal, 2014. 22(4): p. 425-430.
  6.        Ivanova, A., et al., Chemical composition and antimicrobial activity of wild garlic Allium ursinum of Bulgarian origin. Nat Prod Commun, 2009. 4(8): p. 1059-62.
  7.        Krstin, S., et al., Tulbaghia violacea and Allium ursinum Extracts Exhibit Anti-Parasitic and Antimicrobial Activities. Molecules, 2018. 23(2).
  8.        Pavlovic, D.R., et al., Influence of different wild-garlic (Allium ursinum) extracts on the gastrointestinal system: spasmolytic, antimicrobial and antioxidant properties. J Pharm Pharmacol, 2017. 69(9): p. 1208-1218.
  9.        Mihaylova, D.S., et al., Study on the antioxidant and antimicrobial activities of Allium ursinum L. pressurised-liquid extract. Nat Prod Res, 2014. 28(22): p. 2000-5.
  10.      Stajner, D., et al., Exploring Allium species as a source of potential medicinal agents. Phytother Res, 2006. 20(7): p. 581-4.
  11.      Bombicz, M., et al., Anti-Atherogenic Properties of Allium ursinum Liophylisate: Impact on Lipoprotein Homeostasis and Cardiac Biomarkers in Hypercholesterolemic Rabbits. Int J Mol Sci, 2016. 17(8).
  12.      Hiyasat, B., et al., Antiplatelet activity of Allium ursinum and Allium sativum. Pharmacology, 2009. 83(4): p. 197-204.
  13.      Sabha, D., et al., Allium ursinum L.: bioassay-guided isolation and identification of a galactolipid and a phytosterol exerting antiaggregatory effects. Pharmacology, 2012. 89(5-6): p. 260-9.
  14.      Bombicz, M., et al., A Novel Therapeutic Approach in the Treatment of Pulmonary Arterial Hypertension: Allium ursinum Liophylisate Alleviates Symptoms Comparably to Sildenafil. Int J Mol Sci, 2017. 18(7).
  15.      Rietz, B., et al., Cardioprotective actions of wild garlic (allium ursinum) in ischemia and reperfusion. Mol Cell Biochem, 1993. 119(1-2): p. 143-50.
  16.      Preuss, H.G., et al., Wild garlic has a greater effect than regular garlic on blood pressure and blood chemistries of rats. Int Urol Nephrol, 2001. 32(4): p. 525-30.

2 Responses to “Alho de urso (Allium ursinum): alimento da época e planta medicinal

  • Ana Martins
    1 ano ago

    Que artigo fantástico, Ana! Cheguei ao seu site fazendo uma pesquisa por “ALLIUM URSINUM”, porque tenho um livro de receitas com um “corn-fed chicken cordon bleu with wild garlic” que me pareceu delicioso (se quiser envio-lhe uma foto da receita, é muito simples de preparar). Sabe qual é o nome comum deste alho em Portugal, ou qual seria o melhor substituto disponível por aqui?
    Muito obrigada e felicidades,
    Ana Martins
    PS: acabei de subscrever a newsletter

    • Ana Coito, PhD
      1 ano ago

      Olá Ana!
      Peço desculpa pela demora na resposta mas o comentário tinha ido para o spam e só o vi agora!
      Obrigada pelo comentário, fico feliz em saber que gostou do artigo 🙂
      O nome comum usado em português penso que seja mesmo alho de ursos ou alho selvagem. Esta planta é muito comum na Europa central na primavera, mas infelizmente não tenho conhecimento que cresça em Portugal.
      Mas posso estar enganada, se por acaso souber onde encontrá-lo em Portugal, ficaria muito agradecida se me pudesse dizer! Outra maneira de tentar produzi-lo em Portugal seria tentar semear as sementes desta planta na horta ou num vaso 🙂
      Cumprimentos,
      Ana

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