Uma breve história da meditação

Antes de entrar em detalhes sobre os diferentes tipos de meditação e o que as neurociências têm descoberto sobre eles, acho que é interessante voltar um pouco atrás no tempo e ver como tudo começou.

Tenho a certeza de que todos nós já experienciámos alguns aspectos de meditação nas nossas vidas sem estarmos consciente disso, e mesmo antes de termos sequer ouvido falar sobre meditação. Quando nos distanciamos um pouco das nossas vidas ocupadas e nos envolvemos plenamente em certas atividades (sem ter a nossa mente em vários sítios diferentes ao mesmo tempo), experienciamos um profundo sentimento de paz interior.

Por exemplo, quando passeamos no meio da natureza e prestamos atenção a todos os sons, como o som do vento que sussurra através das folhas das árvores, o som da água que flui num rio, o som da chuva, o toque da brisa fresca da manhã na nossa pele, etc.. nestes momentos estamos completamente presentes.

Ou quando brinca com o seu filho e usa todos os seus sentidos para experienciar esse momento e portanto, está totalmente lá. Tenho a certeza que pode reconhecer o quão tranquilo se sentiu durante estas experiências de meditação (estar completamente presente e concentrar a sua atenção numa coisa de cada vez).

Com o passar do tempo, e devido a certas circunstâncias, algumas pessoas tornaram-se conscientes deste processo,  e começaram a reconhecer os seus benefícios e criaram uma prática regular. Depois, partilharam isto com outras pessoas e hoje chamamos a esta prática “meditação”.

A história da meditação tem raízes pré-históricas. É possível que a meditação tenha sido descoberta por uma sociedade antiga após entrarem num estado de transe, depois de um longo dia de caça colectiva, enquanto olhavam para as chamas do fogo [1]. Ou então foi descoberta pelos homens das cavernas depois de passarem períodos prolongados nas cavernas escuras e entrarem num estado alterado de consciência [1]. No entanto, isto são apenas especulações. As provas mais antigas de meditação e yoga foram encontradas por arqueólogos e pensa-se que provêm de antigos cidadãos do Vale do Indo (atual nordeste do Afeganistão ao Paquistão e noroeste da Índia [2]) e datam de 3000-5500 a.C. [3]. Eles descobriram gravuras que sugerem práticas de yoga e meditação. Por exemplo, uma gravura que representa  uma pessoa de cabeça para baixo (invertida sobre a cabeça – uma posição do yoga), sentada de pernas cruzadas em postura de meditação [3]. Em baixo pode ver uma gravura que descreve um homem sentado numa posição de lótus (do yoga), exibida atualmente no museu de Islamabad, no Paquistão [3].

Gravura que representa um yogi a meditar [3]

No entanto, algumas pessoas argumentam que estas gravuras não indicam posturas de yoga ou meditação, mas sim simplesmente um indivíduo sentado ou de cabeça para baixo, uma vez que naquela época não existiam cadeiras e estas posturas não são exclusivas do yoga ou da meditação.

Acredita-se que a raiz da meditação é principalmente encontrada num contexto religioso, o que pode ser provado por imensas evidências encontras em rituais e textos religiosos.

Com o tempo, a maioria das principais religiões do mundo ajustou os aspectos básicos da meditação e incorporou-os na sua prática [4]. As maiores religiões do mundo, como o hinduísmo, o budismo, o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, têm as suas próprias práticas de meditação como o canto e a oração no judaísmo, cristianismo e islamismo, e o yoga e a meditação no hinduísmo e no budismo. No entanto, a maioria das técnicas de meditação que praticamos hoje (cerca de 112 técnicas de meditação) são derivadas das tradições hindus do Vedantismo (o Vedantismo é uma escola indiana de prática religiosa e espiritual) que remonta a 3500 anos atrás.

Alguns milhares de anos depois, durante a Idade Média, no oeste, onde a medicina era do domínio da Igreja e os mosteiros eram vistos como lugares seguros, os monges tratavam as pessoas com ansiedade e stress usando cantos e orações repetitivas [7], também chamadas de mantras.Há muito tempos que os mantras e os cantares têm sido associados à prática de yoga. Os mantras são sequências de sílabas ou palavras que se acredita terem poderes religiosos ou espirituais [8]. E agora, cerca de 500-1000 anos depois, os psicólogos estão a começar a tratar a ansiedade e o stress usando precisamente diferentes técnicas de meditação [9].

Como já mencionei, é muito difícil datar as primeiras práticas de meditação. A meditação que conhecemos hoje é o resultado de muitas adaptações das práticas “originais”. Durante milhares de anos, a meditação transformou-se na prática estruturada que conhecemos hoje. É interessante ver que a meditação foi e é praticada pelos seres humanos de todos os tempos: passado, presente e muito provavelmente, os seres humanos do futuro. Provavelmente porque da mesma forma que o nosso corpo sempre precisou de exercício físico para se manter saudável, a nossa mente também precisa de treino como meditação (o yoga é também um tipo de meditação hindu).

Se olharmos atentamente, veremos que todas as práticas de meditação, aparentemente diferentes, têm bastantes coisas em comum, nomeadamente o olharmos para dentro de nós mesmos, estarmos conscientes dos nossos pensamentos sem julgar e estarmos conscientes do momento presente. Por isso, na minha opinião, não importa qual a técnica de meditação que escolher praticar, desde que esta corresponda ao seu nível de desenvolvimento espiritual e temperamento interior, terá de certeza impactos benéficos no seu bem-estar físico e psicológico, e levará ao seu crescimento espiritual, se isso for o que desejar.

No próximo artigo, vou apresentar alguns tipos diferentes de meditação e explicar muito brevemente como cada um deles é praticado. Desta forma, pode tentar encontrar qual é a técnica mais adequada para si. Lembre-se apenas que precisa de ter muita paciência neste processo, principalmente no início.

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Com amor,
Marjan

 

Referências

[1] Al Taher, R. (2015, September 25). A (Quick) History of Meditation for Beginners. Retrieved from https://positivepsychologyprogram.com/history-of-meditation/

[2] Wright, Rita P. (2009), The Ancient Indus: Urbanism, Economy, and Society, Cambridge University Press, ISBN 978-0-521-57219-4.

[3] Retrieved from http://www.crystalinks.com/induscivilization.html

[4] Puff, R. (2013, July 07). An Overview of Meditation: Its Origins and Traditions. Retrievd from https://www.psychologytoday.com/blog/meditation-modern-life/201307/overview-meditation-its-origins-and-traditions/

[5] Deutsch, Eliot (1988), Advaita Vedanta: A Philosophical Reconstruction, University of Hawaii Press, ISBN 0-88706-662-3

[6] A clinical guide to the treatment of human stress response by George S. Everly, Jeffrey M. Lating 2002 ISBN 0-306-46620-1.

[7] Joseph, M. (1998). The effect of strong religious beliefs on coping with stress. Stress and Health, 14(4), 219-224.

[8] Alper, H. P. (Ed.). (1991). Understanding mantras. Motilal Banarsidass.

[9] Astin, J. A. (1997). Stress reduction through mindfulness meditation. Psychotherapy and psychosomatics, 66(2), 97-106.

 

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