Porque é que eliminar o açúcar da sua alimentação é uma das melhores coisas que pode fazer pela sua saúde – Parte 2

Este artigo é a segunda parte do nosso post publicado na semana passada, por isso, se ainda não leu a Parte 1, clique aqui.

 

Doenças crónicas e consumo de açúcar

 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que o consumo de açúcar nunca exceda 25g/dia e que idealmente seja inferior a 11g/dia. No entanto, estima-se que cada pessoa consuma 126,4 g/dia em média nos EUA e, na Europa, por exemplo na Alemanha, o consumo médio é de 102g/dia /pessoa e no Reino Unido é de 93g/dia/pessoa. Isto tornou-se num grande problema de saúde pública, uma vez que este consumo elevado de açúcar está a levar ao aumento do número de pessoas diagnosticadas com doenças crónicas [2], tais como obesidade, diabetes tipo 2, síndrome metabólica, hipertensão, gota, doenças cardiovasculares, doença de Alzheimer e problemas cognitivos, depressão e distúrbios do humor, doença do fígado gordo não-alcoólico, cancro, doença renal, cáries, etc.

Há de facto milhares de estudos que demonstram os efeitos nefastos do consumo de açúcar para a nossa saúde (nomeadamente, da frutose refinada e da sacarose). Nos parágrafos seguintes, vou descrever um pouco mais em detalhe alguns destes estudos para explicar a relação entre o açúcar e várias doenças crónicas.

 

  • obesidade / excesso de peso

Toda a gente sabe que hoje em dia há uma epidemia de obesidade no mundo. De acordo com a OMS, em 2014, 39% da população adulta mundial (acima de 18 anos) tinham excesso de peso e 13% eram obesos [3]. Curiosamente, eles afirmam:

“A maioria da população mundial vive em países onde o excesso de peso e a obesidade matam mais pessoas do que a falta de peso“.

De facto, depois de tantos estudos científicos terem sido realizados sobre a relação entre o consumo de açúcar e a obesidade, reconhece-se agora que o consumo excessivo de açúcar é uma das principais causas da epidemia de obesidade que estamos a observar.

E pensam que é só em adultos? Infelizmente, também estamos a ver uma epidemia de obesidade em crianças, até mesmo em bebés de 6 meses [4]. Como é possível que bebés de 6 meses sejam já obesos?! Há várias hipóteses, por exemplo a epigenética, nomeadamente a alimentação dos pais antes da concepção ou a alimentação da mãe durante a gravidez vão afetar a genética do filho(a). Mas além disso, olhe para a lista de ingredientes da fórmula para o seu bebé… vê algum ingrediente (ou mais) que termina em “ose” (como sacarose, frutose, dextrose, etc) ou um xarope?

Num estudo sobre a relação entre refrigerantes e obesidade em crianças, publicado no Lancet, onde os indivíduos foram acompanhados durante 19 meses, cada bebida açucarada levou a um aumento do índice de massa corporal (IMC) das crianças e ao risco de obesidade em 60% [5]. Os autores concluíram:

“O consumo de bebidas açucaradas está associado à obesidade em crianças”.

Numa meta-análise (análise de muitos estudos sobre um determinado tópico através de uma rigorosa análise estatística), que incluiu 88 estudos, verificou-se que a ingestão de refrigerantes aumentou o peso corporal, bem como o risco de diabetes [6]. Os autores também notaram que os resultados dos estudos financiados pela indústria alimentar não eram tão óbvios como os dos estudos não financiados pela indústria [6] (surpreendido?).

Num outro estudo interessante, apenas o simples ato de tirar as máquinas de refrigerantes de uma escola durante um ano levou à diminuição do número de crianças com obesidade. Por outro lado, nas escolas que serviram de controlo, onde a máquina foi mantida, a prevalência de obesidade aumentou [7].

Descobriu-se recentemente que uma empresa de refrigerantes patrocinou estudos que culpavam a falta de exercício física pela obesidade [58, 59]. Claro que o exercício físico é uma parte super importante do nosso estilo de vida saudável e devemos definitivamente praticá-lo regularmente, mas se pretende perder peso apenas praticando exercício físico e não tendo em qualquer consideração a sua alimentação, terá problemas em atingir o seu objectivo.

Acredito sinceramente que uma das maneira mais rápidas e saudáveis de perder peso é simplesmente deixar de comer açúcar. Gostaria de lhe propôr um desafio: tente não comer nenhum açúcar refinado durante 2 meses e diga-nos quanto peso perdeu! Mas tenha atenção: nenhum açúcar refinado é permitido, o que significa que vai ter que ler a lista de ingredientes de todos os produtos que compra, porque como eu disse na Parte 1, o açúcar está em muitas coisas que compramos no supermercado. Também terá que começar a cozinhar mais vezes, de forma a evitar as refeições preparadas que normalmente estão cheias de açúcar. Mas vai ver que vai valer a pena! Não há necessidade de dietas loucas!

 

  • diabetes tipo 2

A diabetes tipo 2 é uma doença relacionada com o estilo de vida, e portanto, na grande maioria dos casos, pode ser completamente prevenida. Embora em alguns casos a genética possa influenciar, o rápido aumento de casos de diabetes tipo 2 que estamos a presenciar deve-se principalmente à alimentação. E o açúcar é o principal responsável por esta epidemia, como demonstrado em muitos estudos, por exemplo [8-10].

Infelizmente, o número de pessoas diagnosticadas com diabetes tipo 2 continua a aumentar em todo o mundo. É uma doença grave que pode levar a complicações muito sérias como cegueira, gangrena, amputações, etc. E pensa que esta doença afeta apenas pessoas mais velhas? Infelizmente não. Está também a afetar crianças, o que é bastante revoltante.

Mas há boas notícias! A diabetes tipo 2 não só pode ser prevenida, mas também pode ser revertida! Sim, ouviu bem, há bastante evidência científica de que diabetes tipo 2 é reversível apenas por mudanças na alimentação (veja por exemplo estes estudos científicos [11-16]). Isto até fez manchete em alguns grandes jornais mundiais, por exemplo na CNN (artigo intitulado “A reversão da diabetes é possível”, em inglês) [17].

Eu gostaria de dedicar um artigo inteiro à diabetes e aos estudos que têm sido realizados sobre como reverter a diabetes tipo 2 através de mudanças na alimentação. Vamos publicá-lo em breve, por isso fique atento, pois esta informação pode mudar a sua vida de ou de alguns dos seus familiares.

Entretanto, há uma coisa que se você tem diabetes tem que começar a fazer agora: por favor, deixe de comer açúcar!

 

  • doença de Alzheimer e problemas cognitivos

Sabia que a doença de Alzheimer partilha muitas semelhanças com a diabetes? Alguns cientistas até começaram a chamá-la “diabetes tipo 3” [18, 19]. Sabe-se agora que, na doença de Alzheimer, o metabolismo cerebral da glicose e insulina estão alterados – esta é uma característica fisiopatológica da doença e esta alteração pode também ser um contribuinte fundamental para a patogénese da doença de Alzheimer [19, 20]. Tal como outras células no nosso corpo, parece que os neurónios também se podem tornar resistentes à insulina.

Um estudo publicado no jornal científico Neurology, mostrou que as pessoas com diabetes têm um risco acrescido de desenvolver demência e doença de Alzheimer [21]. Num outro estudo publicado no mesmo jornal Neurology, os investigadores demonstraram que, mesmo em pessoas que não têm diabetes, níveis de glicose cronicamente altos estão associados a uma pior memória, possivelmente devido a um volume reduzido do hipocampo (a estrutura cerebral responsável pela aprendizagem e cognição) . Isto significa que o seu consumo de açúcar pode estar a afetar a sua saúde cerebral e capacidades cognitivas.

Outros estudos corroboraram estes resultados. Por exemplo, neste estudo recente [23] publicado este ano, a associação entre o consumo de bebidas açucaradas e marcadores da doença de Alzheimer foi estudada em 4276 indivíduos. Descobriu-se que a ingestão de bebidas açucaradas está associada a um menor volume total do cérebro e a uma pior memória, concluindo-se que estas bebidas estão de fato associadas com marcadores da doença de Alzheimer [23].

Claro que pode haver outras causas da doença de Alzheimer. Num outro artigo, iremos falar mais detalhadamente sobre as possíveis causas e o que pode fazer para prevenir esta doença.

 

  • síndrome metabólica

Um doente diagnosticado com síndrome metabólica tem 3 dos seguintes sinais: elevada gordura corporal em torno da cintura, hipertensão, níveis altos de glicose em jejum, baixo colesterol HDL e triglicérides elevados. Anteriormente, pensava-se que todos estes problemas não estavam relacionados. Agora, sabe-se que todos estes têm uma causa em comum. Adivinha? Sim, açúcar: muito açúcar leva à resistência à insulina e altos níveis de insulina no sangue, que é a responsável por estes sinais. Existem muitos estudos que demostram que uma exposição crónica à frutose promove a síndrome metabólica (por exemplo, [2, 24, 25]).

 

  • hipertensão e gota

O que é que a hipertensão tem a ver com a gota? O ácido úrico. Muita gente sabe que as purinas, encontradas nos produtos de origem animal, são degradadas em ácido úrico. Mas sabia que o ácido úrico também é um produto do metabolismo da frutose? Valores elevados de ácido úrico podem levar à gota e à hipertensão, uma vez que o ácido úrico bloqueia a enzima nos vasos sanguíneos que produz o óxido nítrico (a enzima síntase endotelial do óxido nítrico), que é o responsável por baixar a nossa pressão arterial. Portanto, quando não produzimos esta enzima, a pressão arterial sobe. De facto, tem-se demonstrado que o consumo de frutose está fortemente associado a níveis altos de ácido úrico e pressão arterial alta [26] e a um elevado risco de gota [27].

 

  • doenças cardíacas e acidente vascular cerebral (AVC)

Como referi na Parte 1, reconhece-se agora, incluindo pela Associação Americana do Coração (American Heart Association), que um consumo elevado de açúcar aumenta o risco de doenças cardiovasculares [28, 29].

Para além disso, também tem sido associado a um maior risco de AVC. Num estudo, o risco de AVC foi comparado entre 3 grupos: um grupo que consumiu 1 refrigerante com açúcar por dia, outro que consumiu 1 refrigerante com baixas calorias (com adoçantes em vez de açúcar) por dia, e outro que não consumiu nenhum refrigerante. Descobriu-se que os ambos os tipos de refrigerantes estavam significativamente associados a um maior risco de AVC [30].

 

  • Doença do fígado gordo não alcoólico

Hoje em dia, a doença do fígado gordo não alcoólico é a causa mais comum de doença hepática crónica nos países desenvolvidos [31]. É causada por uma acumulação de gordura no fígado. Esta doença tem vindo a aumentar a uma velocidade alarmante e é uma doença grave que pode progredir e aumentar o risco de cirrose e cancro do fígado [32, 33].

Mas porque é que vemos tantas pessoas com os valores do fígado alterados ?! Será que é o açúcar? Sabe-se que a frutose aumenta os triglicerídeos e a lipogénese (síntese de ácidos gordos a partir de fontes não lipídicas) no fígado em adultos normais [34, 35]. Portanto, para o nosso corpo, uma alimentação rica em açúcar é na verdade uma alimentação rica em gordura! Neste estudo [35], após apenas 6 dias de consumo elevado de frutose, a lipogénese aumentou 6 vezes e os triglicéridos duplicaram [35]! Mas não há necessidade de consumir frutose durante vários dias para os triglicerídos saltarem: uma ingestão aguda de frutose também aumenta os triglicéridos [36].

Há evidência científica de que a alimentação à base de fast food aumenta a enzima do fígado alanina aminotransferase e os triglicéridos (em menos de um mês!) [37], e o risco de doença do fígado gordo não alcoólico [38]. E o que é que a fast food contém? Açúcares, gorduras e carne. Neste estudo [38], os investigadores demonstraram que uma ingestão elevada de refrigerantes e carne está associada a um maior risco de doença do fígado gordo não alcoólico. Apenas uma lata de refrigerante por dia aumentou em 45% o risco desta doença!

Num artigo de revisão científica muito bom (artigo onde os autores reviram muitos estudos científicos sobre o tema e escreveram um resumo dos resultados), os investigadores concluiram que as bebidas açucaradas por si só podem aumentar a prevalência da doença do fígado gordo não alcoólico [39]. Também observaram que os efeitos nefastos dos refrigerantes podem ser exacerbados pelos outros ingredientes presentes nestas bebidas. Nas próprias palavras dos autores:

“Durante um consumo regular de refrigerantes, a gordura acumula-se no fígado pelo efeito primário da frutose, que aumenta a lipogénese, e no caso de refrigerantes de dieta, pela contribuição adicional do adoçante aspartame e do corante de caramelo, que são ricos em produtos de glicação avançada que potencialmente aumentam a resistência à insulina e a inflamação. “

Mas vamos deixar o tópico de adoçantes artificiais para um outro artigo.

 

  • Depressão

A depressão está também hoje em dia a aumentar, e não, a depressão não é apenas um problema mental. Sabe-se agora que a depressão pode dever-se a desequilíbrios nutricionais, tais como a falta de certas vitaminas, minerais, aminoácidos, ácidos gordos essenciais, distúrbios no microbioma intestinal e níveis instáveis ​​de açúcar no sangue uma vez que o cérebro precisa de um abastecimento estável de glicose!

Além de não fornecer quaisquer vitaminas, o açúcar pode “roubar” vitaminas importantes ao nosso corpo, nomeadamente as vitaminas do complexo B (que são essenciais para o humor), uma vez que o açúcar usa-as no seu catabolismo [40]. Por exemplo, a deficiência em vitamina B6 é bastante comum nos doentes com depressão [41].

Já há muito tempo que se tem obervado uma correlação entre o consumo de açúcar e a prevalência de depressão [42,43]. Num outro estudo, incluindo 1878 alunos do ensino secundário, verificou-se que os alunos que bebiam bebidas açucaradas regularmente apresentavam sintomas de depressão mais acentuados do que aqueles que não bebiam [44].

Além disso, a relação entre a diabetes e depressão está bem documentada, como demonstrado neste artigo de revisão que analisou muitos outros artigos sobre o tema [45]: as pessoas com diabetes têm um aumento da prevalência de depressão e vice-versa. Portanto, tem que haver um mecanismo subjacente comum entre estas duas doenças.

Mais tarde, iremos publicar um artigo sobre depressão e as abordagens nutricionais que podem aliviar ou mesmo curar esta doença.

 

  • Cancro

É bem conhecido que as células cancerígenas são alimentadas principalmente pela degradação anaeróbica (isto é, na ausência de oxigénio) da glicose (glicólise) [46], tal como foi descoberto pelo Dr. Otto Warburg, a quem foi atribuído o prémio Nobel. As células cancerígenas incorporam e usam maiores quantidades de açúcar (glicose) do que as células normais [47].

Existe agora alguma evidência científica que o açúcar não só alimenta o cancro, mas também que o açúcar pode também causar cancro e ajudar as células cancerígenas a prosperar, como demonstram, por exemplo, estes estudos [48-50]. Anteriormente, pensava-se que uma maior degradação da glicose era uma consequência do cancro, no entanto em [48], os autores demonstraram que esta degradação da glicose pode ser por si mesmo um evento carcínogénico. Os autores concluíram:

“A nossa descoberta demonstra que o aumento da captação da glicose ativa vias oncogénicos conhecidas por induzirem um fenótipo maligno”.

 

Açúcar necessário para o cérebro?

Muitas pessoas dizem-me “mas precisamos de açúcar para o nosso cérebro funcionar!”. É verdade que o cérebro usa a glicose como combustível principal. Mas se querem dizer o açúcar refinado, isto não poderia estar mais longe da verdade. Podemos obter glicose por outras fontes mais saudáveis, nomeadamente,  grãos integrais e mel caseiro ou biológico. Para além disso, o cérebro não requer necessariamente a glicose para funcionar, uma vez que pode usar cetonas em vez de glicose. Isto vai acontecer quando jejuamos durante muitas horas ou quando não consumimos hidratos de carbono, mas sim muita gordura saudável.

Não só o nosso cérebro não precisa de açúcar refinado para funcionar, mas os estudos têm demonstrado que o açúcar diminui o QI e também pode promover a doença de Alzheimer, como mencionei em cima.

 

A frutose em frutas é melhor do que a frutose refinada?

Resposta curta: completamente! Há imensos estudos que demonstram que os efeitos prejudiciais da frutose são devidos apenas à frutose industrial. Não há absolutamente qualquer evidência de um efeito negativo da frutose em frutas [51]. Na verdade, muito pelo contrário, apenas a frutose refinada, e não a frutose em frutas, está associada a uma diminuição da função do fígado [51], hipertensão, síndrome metabólica e diabetes [52]. Além disso, um estudo comparou o efeito de 2 dietas – uma dieta com restrição de qualquer tipo de frutose (tanto a das frutas como a industrial) e uma dieta apenas com a frutose em frutas (em moderação) – na perda de peso e síndrome metabólica durante 6 semanas. Ambos os grupos perderam peso, mas surpreendentemente, a perda de peso foi maior no grupo que consumia a frutose natural (em frutas) do que o grupo que restringiu qualquer tipo de frutose [53]!

 

Um outro estudo demonstrou que há um aumento significativo na prevalência da diabetes tipo 2 com o aumento da ingestão de refrigerantes, mas curiosamente isto não acontece com o aumento do consumo de frutas [54].

Porque é que a frutose em frutas não tem o mesmo impacto negativo na nossa saúde da frutose industrial? Tem-se argumentado que isto pode ser devido aos efeitos positivos de outros nutrientes presentes nas frutas, tais como fibras e antioxidantes [51]. Além disso, se a nossa ingestão de frutose é apenas pelas frutas, suspeito que será difícil exceder o limite diário recomendado.

Um estudo comparou os níveis de glicose e insulina no sangue após a ingestão de um copo de água com 35g de açúcar com a ingestão da mesma água açucarada com 1) frutos vermelhos inteiros e 2) sumo de frutos vermelhos [55]. Como esperado, a água açucarada causou um pico de açúcar no sangue e insulina nos primeiros 30 minutos após a ingestão, seguido de um período hipoglicémico (1h-2h após a ingestão). Como resposta, os ácidos gordos livres foram libertados na corrente sanguínea, porque o corpo pensa que está a morrer de fome dado que o nível de açúcar no sangue caiu tão repentinamente, até mesmo abaixo dos níveis de jejum. No entanto, quando os investigadores adicionaram frutos vermelhos inteiros à água açucarada, e embora estes frutos já tenham por si mesmo açúcar (portanto, as pessoas estavam a consumir ainda mais açúcar), o pico de açúcar no sangue foi menor, e o mais importante é que não houve um período hipoglicémico e nem ácidos gordos libertados no periodo a seguir! Os autores atribuíram esta diferença à diminuição do velocidade com que o estômago é esvaziado e também às fibras solúveis (que reduzem a resposta pós-prandial de glicose, aumentando a viscosidade no trato gastrointestinal e interferindo com a libertação e absorção de açúcares). Para verificarem se este efeito benéfico dos frutos vermelhos era apenas devido à fibra, os investigadores repetiram a experiência usando desta vez apenas o sumo dos frutos vermelhos juntamente com a água açucarada. Eles verificaram que 15 minutos após a ingestão da bebida, o pico de glicose tinha sido mais pequeno com os frutos vermelhos inteiros do que com o sumo. No entanto, todos os outros benefícios após este período (níveis de glicose e ácidos gordos livres libertados) foram praticamente os mesmos em ambas as experiências. Isto sugere que existem fitonutrientes presentes nas frutas que inibem o transporte de açúcares para a parede intestinal e, portanto, para a corrente sanguínea. Outros estudos também mostraram que os polifenóis e ácidos fenólicos presentes nas frutas podem bloquear parte da captação da frutose pelas células que revestem os nossos intestinos [56].

Curiosamente, a glicose na presença de frutose (como acontece em açúcares industriais, como a sacarose ou o xarope de milho) pode aumentar a absorção da frutose, o que torna estes açúcares industriais super prejudiciais para a saúde [51].

 

O que diz a Organização Mundial de Saúde?

A Organização Mundial de Saúde (OMS) está muito preocupada com o aumento do consumo de açúcar devido a todos esses problemas de saúde que acabei de mencionar. No relatório mais recente que escreveram sobre este tema, e dado o enorme aumento dos casos de obesidade e diabetes tipo 2 devido ao açúcar, eles pedem uma intervenção fiscal do governo para colocar impostos sobre os alimentos e bebidas que contêm açúcar, e ao mesmo tempo reduzir os preços das frutas e legumes. Nas suas próprias palavras [57]:

“O consumo de açúcares, incluindo produtos como bebidas açucaradas, é um fator muito importante no aumento global de pessoas que sofrem de obesidade e diabetes … Se os governos impuserem taxas em produtos como bebidas açucaradas, poderão reduzir o sofrimento e salvar vidas. Podem também cortar os custos de saúde e aumentar as receitas para investir em serviços de saúde. “.

No mesmo relatório, eles afirmam [57]:

“Nutricionalmente, as pessoas não precisam de açúcar na sua alimentação. A OMS recomenda que, se as pessoas consumirem açúcares, mantenham a sua ingestão abaixo de 10% das suas necessidades energéticas totais e que reduzam o consumo para menos de 5% para benefícios adicionais para a saúde. Isto equivale a menos de uma única porção (250 ml) de bebidas açucaradas por dia.”

Isto significa que se quiser manter a sua ingestão de açúcar abaixo do que a OMS recomenda, não poderá sequer beber uma lata de refrigerante por dia, uma vez que esta já conteria demasiado açúcar!

 

O que pode fazer sobre isto? E se não pode comer açúcar, o que pode comer então?

Como eu tenho vindo a mencionar, sugiro que tente eliminar completamente o açúcar da sua alimentação. Isto pode ser feito em pequenas etapas, ou então, eliminar de um dia para o outro qualquer alimento com açúcar da sua alimentação (claro que a primeira é mais fácil). As minhas sugestões:

– veja sempre a lista de ingredientes para saber o que está a comer. Isto é tão importante !!

– se há alguma coisa na lista que não consegue pronunciar ou que nunca ouviu falar, não compre esse produto. Se não é açúcar é provável algum aditivo artificial, por exemplo adoçante (mais sobre este tópico num dos próximos artigos – mas apenas para você saber, a ciência tem mostrado que os adoçantes aritificiais não são melhores do que o açúcar refinado, e na verdade, alguns deles até podem ser piores) .

– comece a cozinhar mais frequentemente em vez de comprar refeições preparadas. Cozinhe comida “verdadeira” com muitos legumes.

– pode substituir o açúcar por adoçantes naturais, tais como mel caseiro ou biológico e frutos secos (tâmaras, passas, figos, etc …). Por exemplo, se só gostar do seu café com açúcar, ponha em vez disso um pouco de mel. O mesmo é válido para qualquer outra comida/bebida onde costuma adicionar açúcar. Se desejar fazer um bolo”normal”, pode fazê-lo substituindo o açúcar por mel (biológico ou caserio) ou frutas secas. Eu pessoalmente agora prefiro não aquecer muito o mel ou as frutas, mas pode começar por fazer isto dado que está a tentar substituir o açúcar por alternativas mais saudáveis. Acredito que fazer isto já é muito melhor do que adicionar o açúcar “normal”. Use metade da quantidade de mel que usaria se pusesse açúcar: por exemplo, se a receita diz 100g de açúcar, adicione 50g de mel.

Nota sobre o mel: Tenha cuidado com o tipo de mel que compra, pois nem todo o mel de compra é saudável. Muitos já foram aquecidos, processados e alguns até mesmo misturados com açúcar. Por isso olhe para a lista de ingredientes do mel e assegure-se também que é cru e biológico.

Para bolos de chocolate, tente comprar 100% cacau biológico e de comércio justo (mesmo se não conseguir encontrar isto numa loja, existem muitos websites onde pode comprá-lo). E tente usar farinha integral em vez de farinha branca (refinada), que provavelmente é tão prejudicial para a saúde como o açúcar (mais sobre a farinha refinada num outro artigo). E contine a seguir o nosso blog para receber receitas de sobremesas e snacks saudáveis ​​:).

– Veja as referências no final destes dois artigos (Parte 1 e Parte 2), veja documentários, leia livros, etc, de modo a obter mais informações sobre este tópico. Quando eu decidi investigar sobre o açúcar, um dos livros que li, e que contribuiu particularmente para me abrir os olhos, foi o “Sugar Blues” de William Dufty (foi escrito na década de 70, mas a informação contida neste livro ainda é bastante atual). Há também alguns documentários muito bons que pode ver.

 

Algumas pessoas dizem que quando tentam deixar o açúcar têm alguns sintomas de abstinência (como mostrei na Parte 1, o açúcar é extremamente viciante), mas depois de algum tempo, prometo que se vai sentir muito melhor e com muito mais energia! E os seus desejos de comer algo com açúcar vão diminuir e, passado algum tempo, vão parar completamente.

Além disso, com o tempo, você vai sentir que não já não gosta de alimentos com açúcar. O seu gosto muda mesmo. Há alguns anos, aconteceu um evento que me fez perceber que eu já não gosto de alimentos “normais” com açúcar, tais como gelados ou bolos. Fui a um evento em Lisboa em que basicamente podemos comer num restaurante muito bom por um preço bastante acessível. O menu incluía um gelado na sobremesa. Decidi então provar desta vez após vários anos sem consumir açúcar. Fiquei completamente suspreendida ao perceber após a minha primeira dentada que aquele gelado, para mim, era simplesmente horrível. Era tão doce que foi impossível para mim comê-lo. No passado, eu nunca teria imaginado que um dia eu diria que não gosto de gelados “normais”! Eu digo “normal”, porque eu adoro os nossos gelados caseiros :).

Saiba que há muitos açúcares que estão à venda hoje em dia como alternativas “mais saudáveis” ao açúcar normal, mas por favor não se deixe enganar por estas publicidades. Um açúcar refinado é um açúcar refinado, não importa se vem da cana de açúcar ou de outra planta.

Como eu mencionei na Parte 1, uma vez que o açúcar é viciante e que não sabemos o que uma quantidade moderada realmente significa para cada um de nós, devemos evitar comê-lo. Eu reconheço que isto nem sempre é fácil, principalmente no início. Não se sinta por isso culpado se de vez em quando tiver que comer alguma coisa com açúcar. Por exemplo, pode acontecer que vai a casa de alguém e eles fizeram um bolo especialmente para si, e claro que você sente-se mal se não comer uma fatia (mas convém ir dizendo às pessoas amigas que não come açúcar que é para evitar estas situações). Ou vai a um restaurante e o açúcar é adicionado na sua refeição. Mas se tiver como objectivo não consumir açúcar, pelo menos nas coisas que você pode controlar, nomeadamente o que compra e come em casa, já é uma grande mudança. Quando sair, pode simplesmente dizer não a qualquer alimento que obviamente contém açúcar. E se uma vez por ano comer o seu bolo preferido é claro que não faz mal (por ano ou por vários meses, não por semana porque assim o vício não pode ser superado).

Espero que estes artigos o ajudem e àqueles de quem mais gosta de alguma maneira! 🙂

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Viva saudável 🙂
Ana

 

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